"Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer." (Rubem Alves)

Inocência


"não tenho culpa desta chaga, deste cancro, desta ferida, não tenho culpa deste espinho, não tenho culpa desta intumescência, deste inchaço, desta purulência, não tenho culpa deste osso túrgido, e nem da gosma que vaza pelos meus poros, e nem deste visgo recôndito e maldito, não tenho culpa deste sol florido, desta chama alucinada, não tenho culpa do meu delírio."

(LAVOURA ARCAICA)

Sonhos estendidos.



Nos varais dos dias
que passam lentamente
Lençóis brancos
estendidos ao sol
São como sonhos pregados
À espera de coloração.
Formando sombras no vai e vem
do balanço dos ventos
Onde tudo se transformará.



Apoética


Por Indira Bastos
A vida presa em versos
De palavras trocadas
Onde a única utilidade
é a de desenrolar sentimentos
Qual a graça disso?
Definitivamente a beleza não está nas palavras.
Eu a encontro no azul do céu
No vento que bagunça meu cabelo
Na melodia que invade a sala
Nas risadas compartilhadas
Nas maças dos rostos
Não quero escrever poesias
Quero viver poesias.

Minha Cobiça



Quero a leveza do ser,
como as asas das borboletas
sobre a delicadeza da flor.
Quero que o vento
ao tocar minha pele
leve com ele todas as poeiras
do caminho percorrido.
Quero o cheiro da vida
aromatizando os meus dias
com encanto e alegria.
Quero o amor pulsando forte
como uma batida de rock.
Quero o sol dourando risos,
Quero a chuva dentro de mim,
Quero a vida em versos e cores.
Quero tudo que me faça feliz!

Elusivo

Por Indira Bastos


Desses momentos de silêncio.
Onde só o cair do pingo na lata
no quintal ao lado.
Ecoa...
entre uma parede e outra
um fala baixinho.
Alguém conversa ao celular.
Pensamentos tão vagos se finalizam na canção:
“O pensamento parece uma coisa atóa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar...”

Não gosto de despedidas

Por Indira Bastos
    
    Devagarzinho vou me retirando, sem deixar aviso ou sequer bilhete de despedida. Sem que perceba, eu parto.
    Vou sem arrependimento em dar o ultimo adeus. Sem que veja o meu ultimo sorriso. Ou que receba o meu ultimo beijo, abraço. Parto sem arrependimento, pois sei que enquanto estive presente, dei o melhor de mim. Abracei todas às vezes desejadas, sorrir, gargalhei sem restrições. Beijei. Pedi beijos. Vivi cada momento com a sinceridade do sentimento sentido, sem pesar em ter me entregue de todo corpo e alma, assim, como não há arrependimento em partir e deixar-te sem ao menos perceber que fui levando comigo o meu melhor, as boas e eternas lembranças de momentos eternos, eternos sim, pois tudo foi verdadeiro.
    Para mim partidas nunca foram agradáveis. Então faço cera, vou me retirando aos poucos. Na tentativa de enganar a dor engano a mim mesma a ponto de que nem eu perceba a hora da partida...