"Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer." (Rubem Alves)

Amar é naufragar-se.

Por Rebeca Ferreira

Braços abertos,
Pulo de cabeça
No mais profundo mergulho.
Não encontro o chão,
Falta-me ar.
Alguns impulsos
Lutam pela vida.
Encontro ar e,
Vou de encontro à superfície.
Enxugo-me,
E Pulo novamente.


Ao despertar

Por Leonardo Nascimento
Debaixo de um grosso cobertor
Dormia a ternura dos dias
Ao seu despertar, no abrir das janelas
O canto dos pássaros invadiu seu palco
Fazendo-a dançar no silêncio. 

Transito

Por Rodolfo Carneiro

Debaixo de um céu estrelado,
sem luar
nas ruas completas
por passos vazios
que transitam
à procura do inalcançável.

Inocência


"não tenho culpa desta chaga, deste cancro, desta ferida, não tenho culpa deste espinho, não tenho culpa desta intumescência, deste inchaço, desta purulência, não tenho culpa deste osso túrgido, e nem da gosma que vaza pelos meus poros, e nem deste visgo recôndito e maldito, não tenho culpa deste sol florido, desta chama alucinada, não tenho culpa do meu delírio."

(LAVOURA ARCAICA)

Sonhos estendidos.



Nos varais dos dias
que passam lentamente
Lençóis brancos
estendidos ao sol
São como sonhos pregados
À espera de coloração.
Formando sombras no vai e vem
do balanço dos ventos
Onde tudo se transformará.



Apoética


Por Indira Bastos
A vida presa em versos
De palavras trocadas
Onde a única utilidade
é a de desenrolar sentimentos
Qual a graça disso?
Definitivamente a beleza não está nas palavras.
Eu a encontro no azul do céu
No vento que bagunça meu cabelo
Na melodia que invade a sala
Nas risadas compartilhadas
Nas maças dos rostos
Não quero escrever poesias
Quero viver poesias.

Minha Cobiça



Quero a leveza do ser,
como as asas das borboletas
sobre a delicadeza da flor.
Quero que o vento
ao tocar minha pele
leve com ele todas as poeiras
do caminho percorrido.
Quero o cheiro da vida
aromatizando os meus dias
com encanto e alegria.
Quero o amor pulsando forte
como uma batida de rock.
Quero o sol dourando risos,
Quero a chuva dentro de mim,
Quero a vida em versos e cores.
Quero tudo que me faça feliz!

Elusivo

Por Indira Bastos


Desses momentos de silêncio.
Onde só o cair do pingo na lata
no quintal ao lado.
Ecoa...
entre uma parede e outra
um fala baixinho.
Alguém conversa ao celular.
Pensamentos tão vagos se finalizam na canção:
“O pensamento parece uma coisa atóa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar...”

Não gosto de despedidas

Por Indira Bastos
    
    Devagarzinho vou me retirando, sem deixar aviso ou sequer bilhete de despedida. Sem que perceba, eu parto.
    Vou sem arrependimento em dar o ultimo adeus. Sem que veja o meu ultimo sorriso. Ou que receba o meu ultimo beijo, abraço. Parto sem arrependimento, pois sei que enquanto estive presente, dei o melhor de mim. Abracei todas às vezes desejadas, sorrir, gargalhei sem restrições. Beijei. Pedi beijos. Vivi cada momento com a sinceridade do sentimento sentido, sem pesar em ter me entregue de todo corpo e alma, assim, como não há arrependimento em partir e deixar-te sem ao menos perceber que fui levando comigo o meu melhor, as boas e eternas lembranças de momentos eternos, eternos sim, pois tudo foi verdadeiro.
    Para mim partidas nunca foram agradáveis. Então faço cera, vou me retirando aos poucos. Na tentativa de enganar a dor engano a mim mesma a ponto de que nem eu perceba a hora da partida...

Aviso

Pestes e gafanhotos invadiram Meu Jardim, um furacão de sentimentos e pensamentos arrancou flores e plantas. Ervas daninha e parasitas de várias espécies foram encontrados. Por estes motivos e mais alguns não citados o Meu Jardim se encontra fechado para reforma por tempo indeterminado. 
Estou à procura de novas emoções, paixões, medos e desejos para serem plantados e cultivados. Recomeçaremos do zero apenas com o terreno e a experiência.
Conto com a ajuda de voluntários para esse novo recomeço.

Grata!

Diga-me

Por Ciro Goís

Diga-me, como seguirei
Se ainda sinto teu cheiro
No vento que invade a minha solidão
Quebrando o calor das tuas mãos
Ainda preso em meu corpo
Ardido em paixão
Que dança ao ouvir tua voz
Em qualquer música
Que faça o passado virar presente,
Se esse é o ensaio dos meus dias,
Diga-me, como seguirei sem ti?

Traga-me

Com teu olhar que me traga,
Traga-me o encanto
Dum amanhecer anunciado
Pelos cânticos dos pássaros.

Detrás do horizonte.

Posso tocar nas cores soltas pelo ar
Cores...
Embaladas na melodia dos ventos,
Cores que escorrem pelas mãos.
Cores livres,
Cores...
Cores amarradas pelos laços do invisível.
As cores...
Todas as cores do meu coração,
Meu coração de todas as cores.

Disfarce


Disfarça,
E olha.
Olhar inquieto
com a presença de quem
o coração muito amou

Disfarça,
E olha.
O sorriso forçado
Tem endereço certo.

Disfarça,
E olha
Finge
Enquanto o outro faz o mesmo.

Indócil


“Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?”
(P. leminsk)

Desculpa-me...
Se não sei fingir
Se não sei mentir
Desculpa-me.
Se não sei usar a metade
O meio termo
Peço-te desculpas
Se não houver volta,
Se esquecer-me do que foi
Desculpa-me...
O agora me movimenta
O depois é espera
E toda espera, deixa-me indócil.

Intesamente.

Vivo intensamente:
cada momento,
pois não sei
a hora do seu fim.
cada sentimento,
pois não sei
até quando fará parte de mim.

Amo,
sem medo,
desejo.
desamo,
sem arrependimento,
pelejo,
transformo,
todo sentimento:
intensamente vivo.

As tempestades em guerra

Numa dessas noites
A tempestade que caia lá fora
Disputava sua força
Com a que caia aqui dentro.
Uma querendo ser mais forte que a outra.
As duas perturbando a minha solidão
Arrancando de mim choro e gemido
Levando,
Com a água que escorria pelas paredes
Do quarto e do meu rosto,
A paz.

Eu, incomodada com tanta aflição.
Fiz um pacto:
“-Dê-me paz de espirito e eu te entrego a minha alma e coração.”
Sem que terminasse a prece
Cai no sono.
Quando dei por mim já era dia
E nada mais sentia.
A chuva só caia lá fora
E aqui dentro,
Ainda bagunçado com os destroços que restou
Eu tive a certeza que depois de uma faxina
Nada mais me desatina
E toda aquela tristeza acabou.

Metade

Completar-se
Doar-se
Dividir-se
Compartilhar-se
Entrelaçar-se
Dois em um só.
Até quando houver
Amor,
Vida.

Lembranças


Por Leonardo Nascimento
Olhos fechados
Teletransporto-me.

Pausa.
     Câmera lenta.

As lembranças
Quase apagadas lutam para ter vida,
Cor.
Está tudo tão longe,
e parado em um tempo que ficou para trás,
Distante de tudo que é hoje.
O que nunca voltará a ser.

E serão apenas lembranças,
 Boas lembranças.